Artigos/Princípios de Negócios
Negue-se a si mesmo: o denominador comum entre casamento, empresa e fé
Casar, empreender e crer têm um preço em comum: renunciar à própria vontade na maioria das vezes. É o princípio mais caro que conheço — e o único que nunca falhou.
Há uma pergunta que faço a quase toda a gente que me pede conselho — a quem quer casar, a quem quer abrir empresa e a quem me pergunta como é que a fé se aguenta quando a vida aperta. A pergunta é sempre a mesma: o que é que estas três coisas têm em comum? As respostas variam. Amor. Coragem. Disciplina. Sorte. Todas verdadeiras, nenhuma suficiente.
A resposta que a prática me deu é menos bonita e mais útil: negue-se a si mesmo. Se quisermos fazer funcionar qualquer uma destas três áreas, temos de aceitar pagar o preço de renunciar à nossa própria vontade na maioria das vezes. Não numa ou noutra ocasião dramática. Na maioria das vezes. Nas terças-feiras.
O sonho é barato. Manter é que custa.
Tu podes ter o sonho de casar. Quase toda a gente tem. Mas para manter o casamento tens de aprender a renunciar: à razão numa discussão que até podias ganhar, ao plano que fizeste sozinho, à versão de ti que só funcionava quando não tinha de partilhar o comando.
Conheci a Flávia em 2005, na turma E10 da Escola Barão Puna. Foram quatro anos até ela aceitar namorar comigo, a 8 de Agosto de 2009, e dez anos de namoro — sete deles à distância — até casarmos em 2020. Quinze anos. Ninguém aguenta quinze anos com entusiasmo; aguenta-se com renúncia. Todas as vezes em que a distância, o cepticismo dos outros ou a minha própria impaciência me davam uma boa desculpa para desistir, a decisão foi a mesma: hoje não é sobre mim.
«Ninguém aguenta quinze anos com entusiasmo. Aguenta-se com renúncia.»
Empreender é o mesmo verbo.
Entrei no design gráfico em 2012, na Cabográfica, com o Roble como mentor. Antes de ter estabilidade, passei quase sete anos a trabalhar sem salário — ImaginationBox, Cabográfica, Tecnoson, Pric Consultoria, FN Moreira, Delta Bravo, a Igreja Apascentar até 2019. Sete anos em que a minha vontade dizia uma coisa, todos os dias, e a decisão dizia outra.
Quando criei a Living Art em 2017, e depois a Abraccio, a renúncia mudou de forma, não de natureza. Renunciar a clientes que pagavam bem mas destruíam a equipa. Renunciar a crescer depressa para crescer inteiro. Renunciar a ser o designer que faz tudo para ser o empresário que deixa outros fazerem melhor. Cada uma dessas decisões custou-me algo que eu queria. Nenhuma me custou algo de que precisava.
E a fé não é excepção. É a origem.
Em 2008, durante uma pregação do Pastor Marcelo, caí num choro profundo. Ninguém precisou de me evangelizar. Quando fechei e abri os olhos, percebi que a fé não era um sentimento que eu tinha — era uma vontade a que eu me submetia. É de lá que vem a frase. Não é minha. É a instrução mais antiga que conheço sobre como se constrói qualquer coisa que dure: nega-te a ti mesmo, toma a tua cruz, segue.
O casamento e a empresa apenas repetem, em escala humana, aquilo que a fé ensina em escala eterna. É por isso que a mesma pessoa que não consegue renunciar em casa raramente consegue renunciar na empresa — e vice-versa. O músculo é o mesmo.
O que fazer com isto amanhã
Três coisas, nenhuma delas confortável.
Escolhe uma renúncia por semana e nomeia-a. «Esta semana não vou ter razão na reunião de segunda.» «Esta semana não vou aceitar o projecto que paga bem e cansa mal.» O que não se nomeia não se mede.
Distingue vontade de necessidade em cada decisão grande. A maior parte do que chamamos estratégia é vontade disfarçada de análise.
Mede o tempo em anos, não em trimestres. Quatro anos para um sim. Sete sem salário. Dez de namoro. Quem constrói activos duráveis pensa em décadas e aceita que a maioria das terças-feiras não é sobre si.
Negue-se a si mesmo. Não é uma frase para a parede. É um plano de negócios.